Barragens – Picote

Barragem de Picote

 Picote foi a primeira das três intervenções realizadas no Douro Internacional, entre 1954 e 1959.
As intervenções consistiam na realização de infra-estruturas para instalar as famílias do pessoal que iria trabalhar na construção. A localização coincidia com uma das áreas mais atrasadas do pais. Condição difícil, dada a ausência total de infra-estruturas e mão de obra qualificada necessárias à concretização de um programa complexo e ambicioso. Este programa comportava a construção de habitações e serviços para 5.000 pessoas. Traçam-se estradas, constroem-se casas provisórias em madeira com baseamento de granito, realiza-se a estação de tratamento de água, elabora-se o plano urbanístico para as estruturas definitivas.
A construção da paisagem e da imagem exterior e interiores aos edifícios é objecto de especial atenção. Estudam-se as espécies arbóreas compatíveis com o clima e com o objectivo das várias tipologias construtivas. Tenta-se conjugar tradição e moderno para obter novos e coerentes efeitos expressivos.
Materiais antigos encontram-se com novos para gerar formas lógicas e funcionais capazes de enriquecer a qualidade espacial. O cimento, o ferro e o vidro podem conviver e combinar-se com o granito, a ardósia e a madeira. A nova tecnologia propõe-se superar os limites que a economia e os condicionantes locais impõem.
A energia eléctrica assumida como um moderno símbolo vital da sociedade em desenvolvimento, com a sua capacidade de transformação, permitem superar os ritmos naturais. O artifício, mais uma vez, entra em competição com a natureza abrindo caminhos a novas imagens alternativas do universo das formas. A mensagem futurista concretiza-se fora do âmbito metropolitano construindo as suas próprias catedrais em lugares pouco visíveis, muitas vezes completamente escavadas no subsolo.

Central - Edifício de Comando - Edifício de Descarga - Parque de Linhas

O problema principal que influi decisivamente nos esquemas das obras realizadas no Douro Internacional, é o da evacuação do elevadíssimo caudal de cheias.
Em função deste problema e das condições topográficas do local de Picote, foi executada uma barragem arco, com descarregador sobre o coroamento. Os mesmos condicionamentos levaram igualmente a preferir que a central fosse subterrânea, com 88m de comprimento, 16,6m de largura e 35m de altura. O edifício de comando e de descarga localizou-se numa plataforma à cota do coroamento da barragem. A forma apertada do vale obrigou a instalar o parque de linhas numa outra plataforma à cota mais elevada, já na zona planáltica.
O acesso à central faz-se através de dois poços dotados de ascensores e escadas, um com 35m e outro com 78m de altura, estabelecendo este último comunicação directa com o edifício de comando.

Bairro

A área de localização das casas definitivas para operários especializados constituiu, em fase de planificação, objecto de polémica. Os engenheiros habituados a dar prioridade ao parque de linhas, pretendiam que este fosse implantado numa plataforma natural do planalto, lugar que dispunha de predominante visualização paisagística. Era no entanto, na opinião dos arquitectos, este o lugar privilegiado para a localização do bairro.

Escola

Mesmo respeitando as directivas emanadas pelo regime, baseadas na organização da escola em áreas de serviço separadas por sexo, a escola de Picote consegue um carácter de modernidade e interacção dos espaços recreativos.
As salas de aula adquirem um ambiente de grande luminosidade e abertura visual para a paisagem, através do grande plano envidraçado que substitui na totalidade uma das paredes.
A articulação dos dois corpos das salas de aula, é realizada através da centralização dos espaços comuns.

 

Capela

No percurso de acesso ao bairro, o primeiro edifício com que nos deparamos, é a capela.
As árvores que entretanto cresceram, não conseguem anular o vibrante ritmo dos pilares que contêm o volume paralelipipédico da nave. Um templo clássico revisitado, que nos transmite com clareza antigos princípios arquitectónicos: pórtico, peristilo, cela e campanário. Uma exile cruz de ferro pintada de preto, emerge do plano da cobertura, conotando imediatamente a função do edifício.
O campanário solto do corpo da Capela formaliza-se num elemento de referência territorial.
A pavimentação em grandes placas de cimento lavado, moduladas transversalmente ao percurso da entrada, evoca figurativamente as monumentais escadarias de granito dos edifícios religiosos. O pórtico coberto, pavimentado em granito, anuncia-nos a crescente preciosidade do espaço.
O interior, definido verticalmente por paredes revestidas em tijolo vidrado, encerra magnificamente o conceito da ligação interactiva das artes.
As modestas dimensões do edifício exaltam o equilíbrio de proporções e o rigor de formas que fazem desta obra uma das mais perfeitas da Arquitectura Moderna Portuguesa.

Centro Comercial

O centro comercial abrange a estação de correio, padaria, mercearia, talho, peixaria, drogaria e barbearia.
Os dois corpos definidos pelo cruzamento de planos verticais de granito e planos horizontais rebocados, organizam o espaço publico da praça que se dilui com um rigor geométrico no território natural, definido perspectivas e insinuando percursos.
A chaminé cerâmica da padaria, para além do sua valência funcional, ganha no território urbanizado, um carácter simbólico de referência.

ETA

Os volumes paralelepípedos individualizam-se rigorosamente na irregularidade morfológica do lugar.
A plataforma de acesso, localizada ao nível do plano horizontal da cobertura d volume mais baixo, afirma a nova linguagem que os arquitectos modernos pretendem para os lugares de trabalho.
Será no entanto nos futuros projectos das estações de tratamento de Miranda e Bemposta, que a concepção espacial atingira o perfeito equilíbrio entre a função de depósito de água e o lugar de trabalho onde o homem faz o tratamento deste precioso recurso.

Zona recreativa e Piscina

Inserida no terreno rochoso a norte da Pousada, a piscina aparece-nos surpreendentemente no final de um tortuoso  percurso desenhado entre maciços rochosos e uma ligeira e agreste vegetação.
O grande rigor geométrico constitui o elemento de controlo da intervenção relativamente ás variações de cota do terreno. Através de pequenas rampas de escadas faz-se a concordância entre os terraços que formam lugares de repouso. O eixo longitudinal da piscina é marcado pela localização, nos dois topos opostos, de dois elementos emergentes do terreno, o trampolim e os vestiários-sanitários.

Estalagem

 Para aceder ao edifício é preciso distanciarmo-nos da estrada e atingir o ponto mais elevado do terreno. Um espaço livre desenhado por uma geométrica plantação de árvores destinadas a parque de estacionamento, anunciam a estalagem.
O edifício articula-se em dois corpos encastrados e emergentes do solo, respectivamente com um e três pisos. As áreas de serviço colocam-se no rés-do-chão e os quartos nos pisos superiores.
O rigor geométrico e a pureza dos volumes dá continuidade ao carácter formal da Capela, sem perder as referências à arquitectura popular local, referências que lemos através da modulação estrutural e da relação entre cheios e vazios.
Um rigoroso e essencial desenho despojada de pomposas e axiais simetrias caracteriza tanto a planta como os alçados.