Danças Mirandesas – Conclusões

Danças Mirandesas - Conclusões

Este nosso trabalho, feito em muitos anos de convivência em convívio directo com o povo e com as suas manifestações Iúdricas, musicais e coreográficas, abordou o estudo de danças do Entre-Sabor-e-Douro, mas não de todas, pois há mais algumas que não puderam ser estudadas, quer de tradição recente, quer de tradição remota ainda com maior ou menor vivência, especialmente na Terra de Miranda.
Quer dizer então quanto a Trás-os-Montes?
Oxalá que um dia se venha a fazer o estudo íntegro de todas as manifestações lúdricas de toda a província de Trás-os-Montes, quina sagrada do nosso sacrossanto Portugal, onde há tantas relíquias etnográficas, de velhos e patriarcais usos e costumes, que se pode, com toda a propriedade, chamar-lhe relicário da etnografia portuguesa.
Sobre as danças de Moncorvo apenas duas palavras.
A Dança dos Pretos é uma criação calendárica de celebração solsticial de inverno, sustentada pela Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Moncorvo, para festejar, pelas ruas da mesma vila, o nascimento de Jesus, no Dia de Reis.
A letra é expressão inspiradora da salvação dos dançantes e ouvintes, em forma de prece e de louvor.
A coreografia enquadra-se bem nas danças de composição paralela ou de coluna, muito do gosto dos séculos XVII e XVIII, que proliferaram por toda a parte, principalmente nas confrarias de mesteirais que tomavam parte nas procissões solenes do Santíssimo Sacramento, com seus santos padroeiros, seus estandartes, seus instrumentos musicais e dançantes.
A Dança das Fitas é uma dança, pode dizer-se, dispersa por todos os continentes do globo. Está ligada às celebrações da Primavera, e é simbólica dança da fertilidade, de culto e homenagem ao ressurgimento do cicIo da flora, garantia da perenidade da vida sobre a terra.
A dança satírica do Felgar está ligada às celebrações críticas e jocosas do Carnaval.
Quanto às danças mirandesas pouco mais teremos a dizer.
Simplesmente que foi o próprio povo rústico da Terra de Miranda que as criou, ou adaptou, como expressões de alegria colectiva, e festiva das tardes domingueiras do ano, excepto no Advento e Quaresma, tempos clausos para o canto e a dança profanas.
No entanto, algumas tinham os seus dias grandes no ano, como o Pingacho, o Galandum, as Ligas Berdes e o Redondo, nas festas de inverno, em honra de Santa Catarina, em Ifanes, Miranda do Douro, a 25 de Novembro, de Santo Estevão e S. João, nos dias 26 e 27 de Dezembro, em Duas Igrejas.
Os repasseados, em número de uma dúzia (os que conhecemos) tinham também os seus dias maiores, nas festas citadas, e em todas as aldeias deste Nordeste Trasmontano, durante a tarde e a noite, ao toque da gaita de fole, da caixa e do bombo, ou simplesmente da flauta pastoril e do tamboril, actualmente do realejo, com carácter mais universalizado, em todas as festas das aldeias, quer de inverno quer de primavera, quer ainda do fim do verão, estas consideradas como as festas das colheitas.
Os repasseados eram longa e exuberantemente dançados nas romarias da Santíssima Trindade, de Fonte de Aldeia, da Senhora do Rosário, de S. Pedro da Silva, da Senhora da Luz, de Constantim, da Senhora do Naso, da Póvoa, todas do concelho de Miranda do Douro, e em Duas Igrejas e em Sendim, em 15 de Agosto e nos dias Santos de Natal. Recordo com saudade (A. M.) como os pares rodopiavam nos repasseados ponteados ao toque das gaitas de fole sopradas e ponteadas pelo Tio Pepe de Freixiosa e por Silvestre Louçano de Vila-Chã Os rapazes, com botas de bezerro branco, calças e jaquetas de serguilha lustrosa e grande chapéu, camisa branca de linho de cantos redondos, e chapéu de aba larga. As moças ainda de saia rodada de 22 palmos de roda, de pano de saragoça, preto, castanho ou azul, com barra de veludo, ou já liviadas no peso, de castorina ou outro pano de la, com barras e vivos de seda acordoada ou veludilho, casaca do mesmo pano grosso e lenço de lã colorido, de barra ligeiramente esfiapada. Era de ver os rapazes irem com ligeireza ao centro da roda dar duas meias voltas, a maneira de galarozes, sem perder o ritmo do repasseado, nem os seus lugares, nem os seus pares.
Sentia-se que algo de telúrieo havia nestas danças e sente-se ainda hoje a mesma expressão telúrica e forte vibração, quando o atavismo e o mesmo sangue ainda lhe corre nas veias.
A Terra de Miranda, no extremo Nordeste de Portugal, que tem como capital a velha e nobre cidade de Miranda do Douro, tem conservado estas danças espontâneas e bem exclusivamente suas, além do seu dialecto, o mirandês, e de um conjunto de velhos usos e costumes que merecem cuidadoso estudo e carinhoso amparo.
Os autores, como dissemos atrás, há anos que se dedicam, em estreita colaboração, ao estudo do folclore trasmontano.
Na medida em que as ocupações presentes de cada um o têm permitido, as observações e recolhas tèm sido feitas mais ou menos interpoladas, mas sempre dentro do plano unitário do colheita e estudo destas reIíquias etnográficas, que não são poucas. Muitas mais ainda se conservam cheias de salutar vivencia no povo de Trás-os-Montes, e, de modo especial, no da Terra de Miranda. Mas por quanta tempo?
Dos apontamentos e notas recolhidas, sucessivamente acrescidos e ajustados, surgiu o presente trabalho que não julgamos perfeito porque ninguém neste mundo realiza um trabalho perfeito. Com as deficiências que porventura forem encontradas, sejam-nos estas relevadas e permita-se, ao menos, reconhecer a boa vontade que tivemos de registar e conservar, para a história e a vida do folclore nacional, estas manifestações do património cultural que o povo criou e mantem ainda vivas.
Os bailados mirandeses de coluna ou paralelos, de dois dos quais fazemos a publicação nesta colectânea, o Galadum e o Pingacho, são da mesma família coreográfica, mas de musicas e letras diferentes, e a própria coreografia também algo difere, aos quais acrescentamos as «Ligas Berdes», que também se chamava antigamente Habas Berdes, o que nos faz conjecturar ser a sua origem espanhola, bem como o Maganão.
Ainda nos ficam de fora mais alguns para outra oportunidade, se nos sobrar o tempo e a saúde.
Os três primeiros têm letra em puro dialecto mirandês, só o «Maganão» tem letra em português. Cremos (A. M.) que o P. Firmino Martins já registou esta letra como bailado, sem o especificar, no seu «Folclore do Concelho de Vinhais», vol. I, pág. 544.
O significado dos dois últimos não difere do significado que se dá àcerca dos dois primeiros, dos quais fizemos um estudo exaustivo.
Quanto aos repasseados, que são expressão coreográfica puramente  mirandesa, julgamo-Ios de criação autóctone. Ainda pensamos que teriam qualquer familiaridade com a Murinheira Galega (creio que o disse algures e em algum tempo, ou o escrevi (A. M.), mas, depois de ter observado bem a coreografia da «Murinheira», nada encontramos nela de familiar com os repasseados mirandeses.
Estes constituem um numeroso grupo de danças que conservam simultaneamente viva, elegante e simples, uma das mais puras expressões da coreografia popular não só mirandesa e trasmontana, mas também portuguesa e peninsular.
Estes repasseados constituem uma verdadeira família coreográfica, tendente a aumentar em número (a qualidade e sempre a mesma) que se executam sempre por grupos de 4 dançantes mixtos, múltiplos de 4. Quanto maior for o número de grupos mais rica se toma a sua expressão panorâmica e mais espectacular a sua roda e a individualização dos grupos em autentico formigueiro dançante, com graça e certeza de passos.
É um bailado de terreiro que tanto se executa ao som de canto, com ou sem acompanhamento instrumental, como só ao toque dos instrumentos de música local e popular, como a gaita de fole, caixa e bombo, a flauta pastoril monotubular, de três orifícios, o tamboril, o realejo, o bombo e ferrinhos.
Actualmente também aparece já a ser dançado nos terreiros das nossas aldeias ao toque do acordeon, ferrinhos e bombo.
Referimo-nos atras (A. M.) às romarias do Naso, da Trindade e de Duas Igrejas, em que se bailava o repassado durante dois dias e duas noites, sobretudo no Naso. Os pastores, pastoras e boieiros, iam preparados e aparelhados, para dançarem ao desafio em grupos isolados. Num grande campo, por toda a parte, se viam e ouviam os realejos e os pares dançando sem parança. Os próprios tocadores eram bailadores. Então sim, era expressão campestre de alegria, bem pura e espontânea, de uma mocidade, que vivia o seu mundo de tradição e da própria natureza rural.
Cronologicamente não nos é fácil estabelecer datas de origem, mas a sua expressão circular inicial e o namoro repasseado frente a frente com singular galanteio, levam-nos para trás  do século XVII.
A letra traduz-se em quadras de redondilha, sempre menor, para os passos repassados, as vezes redondilha maior para as partes circulares, em Solidana, Para Namorar Morena, Verde Gaio e Maripum, e menor nas circulares de Giriboilas, Fui-me a Confessar, Madre Abadessa e Balentim Trás Trás. De todos os repasseados, serão as Giriboilas o mais castiço e primitivo, ;cuja letra, como a de Para Namorar Morena, são em mirandês puro. Os outros têm letra em português, fruto de posterior criação popular.
Estes bailados são expressão de pura rusticidade. Não cremos que tenham tido qualquer influência vinda de salões aristocráticos, que nesta zona, apenas os houve no renascimento, na velha cidade de Miranda, mas que não devem ter influenciado nesta matéria os aldeãos, que se viram fulminados pelos bispos dos séculos XVII e XVIII, nas disposições das visitas pastorais, com penas que iam desde multa pecuniária à prisão e excomunhão (1).
Não incluímos aqui os bailados repasseados de acompanhamento simplesmente  instrumental, que como dissemos ficam para outra ocasião.
Iniciamos estes singulares bailados repasseados pelas Geriboilas, que julgamos o mais antigo e castiço com estudo permenorizado e indicação dos vários passos da dança, indicados como padrão, em desenhos coreográficos esquemáticos com a respéctiva letra.
Corno os vários repasseados são todos do mesmo tipo das «Giriboilas» (12), visto que os seus passos e trespasses são perfeitamente sobreponíveis, limitamo-nos a apontar para cada um aquilo que os distingue, quer por ser mais rápido, ou mais lento, ou mais ou menos pulado, nesta ou naquela fase do conjunto coreográfico.
No discorrer do estudo de algumas danças, por acidental comparação, referimo-nos a um ou outro aspecto de manifestação etnográficas similares noutras regiões.
O tema merecia análise comparativa mais demorada para melhor sistematização dos aspectos similares, ou como seu enquadramento nos complexos da cultura popular tradicional, ou em determinados estados de evolução.
Mas como dissemos atrás, e repetimos novamente, a tarefa seria longa e custosa.
Bem é prevenir a quem não esteja familiarizado com os modernos estudos etnográficos de Folclore, que certos aspectos de expressão da alma e da vida tradicional dos povos estão bem longe de serem aquilo que muitos supõem: simples mascaradas burlescas ou puros devaneios de imaginações mais ou menos delirantes.
As criações populares que a tradição e o uso consagraram são criações sérias, instrumentos e elementos da vivência popular, expressões culturais que fazem parte do património cultural e espiritual das regiões e das pátrias.
Há longínquas e respeitáveis origens magico-anímicas, em muitos aspectos, ou manifestações etnográficas, embora algumas à primeira vista pareçam absurdas e porventura ridículas.
Todas têm as suas motivações e podem ser elos preciosos de uma cadeia de factos culturais, que nos levam a enriquecer e enobrecer cientificamente a História e a Antropologia Cultural.
O nosso povo sempre soube, e sabe, cantar, bailar e rir.
O canto, e a dança refletem muitas vezes, indole milenária de emoções dos mais variados estados de alma. Tantas vezes exteriorizam sentimentos profundos de veneração e culto pelas forças da Natureza, criadora da renovação cíclica das plantas, com suas flores, frutos e sementes, renovação que é, essencialmente, razão da continuidade da vida na Terra.
Setembro de 1980.

(1) Vale a pena transcrever o códice, que segue, provisão do bispo de Miranda D. Frei Aleixo, dada em Duas Igrejas, aos 26 de Outubro de 1760.

– «Temos noticia que, neste lugar de Duas Igrejas não há festividade maior em que não deixem de sair com sua Comedia pública, acabando com várias Danças de homens com mulheres;·e porque semelhantes representações induzem hum adjunto que he a occasião de muitos escandalos e pecados, misturando assim o profano com o Sagrado e, tudo originado das Comédias que continuamente fazem, principalmente na ultima Oitava da Paschoa, na festividade de Santa Bárbara: pelo que mandamos ao Reverendo Párocho, sob pena de suspensão de suas Ordens e as mais a nosso Arbítrio totalmente impidão semelhantes Comedias, feitas a titulo de Devoção; porque senão impedimos aos Povos os seus divertimentos, não podemos consentir estes como cultos oferecidos aos Santos, porque seria consentirmos uma Chimera … ».
Era a lei do chicote que de nada valeu, e o povo de Duas Igrejas, continuou a exibir na Festa de Santa Barbara, ou «Festa das Flores», a mesma «Dança das Flores», até aos nossos dias e a fazer a Pandorca, ou cortejo de chocalhos em volta das fogueiras, à porta de todas as casas, na véspera da mesma, ou seja no sábado (em vez do arraial, com aglomerado e baile colectivo), com os cânticos de grupos a Santa Barbara, pedindo livre os «trigos e centeios», «também os serôdios», de «Raios e pedras» enquanto os rapazes, os gaiteiros e os mordomos, vão circundando todas as fogueiras que na noite se vão acendendo às portas das habitações, como chama propiciatória à Santa Virgem e Mártir Bárbara, padroeira contra as trovoadas, como celebração de Maio.
Mas no capitulo 16 das disposições sobre a mesma visita pastoral determina mais o seguinte, com terríveis ameaças que de nada valeram, porque os povos continuam e as tradições têm muita força, pois foram e serão sempre um «impulso vivo», como Ihe chamou urn dia em urn congresso de História, o Prof. de História Medieval da Universidade de Barcelona, Doutor Emilio Saiz. Eis a disposição episcopal: «E porque devemos atalhar os pecados e escândalos que nascem de dançarem homens com mulheres, e que já se tem proibido por pastorais de nossos antecessores, para desviarem ruínas espirituais que se seguem de similhantes danças, de que anda sendo guia o inimigo comum; mandamos aos Reverendos Parochos prohibão totalmente semelhantes desordens; e sob pena de suspensão Ihes determinamos condenne as mulheres q. se meterem a dançar com os homens, e aos homens que se meterem a dançar com as mulheres pela primeira vez em dez tostões; e na segunda, nos dê parte p.a Ihes fazermas pagarem dous mil reis de Aljube; e não querendo pagar a dita condenação primeira de dez tostões, dentro de três dias, os evite p.a fora da Igreja, e carregando-lhe as censuras atté de participantes, e pagando os absolvão».
No capitulo seguinte, os compara com «os Bárbaros e Gentilismo». Cap.o 17. «- E porque sabemos que os moradores deste lugar imitando os Bárbaros e Gentilismo costumão aplaudir as suas festas com lutas» …
Estas seriam as lutas entre casados e solteiros, na festa de S. João, em 27 de Dezembro, na cerimónia do Encerramento do Corregedor em que solteiros e casados, antes da missa da festa, lutavam por vezes durante várias horas, para não deixar encerrar o corregedor, que era, e é ainda, o ultimo rapaz que casou nesse ano na povoação, e depois de várias andanças aos ombros dos dois mordomos de S. João, que são sempre solteiros, o corregedor é encerrado no curral da casa da Abadia, mas os casados não o querem deixar encerrar, opondo-se às portas do mesmo curral, que são de carro, para ande os mordomos que o levam aos ombros, depois da última jornada ao som dos gaiteiros, tentam atirá-Io. Então se gera a luta e castumam vencer os casados que têm levado os salteiros a reboque, corpo a corpo, a mais de trezentos metros de distência. Para essa luta, constumavam levar os fatos mais velhos, donde sempre saiam para mais não poderem ser vestidos.
Lembramos que S. Martinho de Braga em seu «De Carrectione Rusticorum» já no séc. v se levanta contra as celebrações salsticiais e calendaricas dos seus cristãos suevos, nossos antepassadas. Costumes que eles traziam do Gentilismo, e como o Douro continuou a correr para o mar, as festas da Rusticidade, continuaram até aos nossos dias, no ultimo quartel da século xx. De nada valeram as combinações despóticas, porque nunca se quis reconhecer a verdadeira alma do povo, «a alma funda das gerações», como lhe chamou o grande Pontífice Pio XII. (Ver António Maria Mourinho, «A Dança na Antiguidade e na Idade Média», in «Revista de Dialectalogia y Tradiciones Populares», Tomo XXXII, Madrid, 1976- ADERNOS 1.°, 2.°, 3.° y 4.° págs. 382-383; e «DE CORRECTIONE RUSTlCORUM” de S. Martinha de Braga, in «HESPAÑA SAGRADA», Tomo xv, págs. 425-433» Apend. 3, «SANCTI MARTINI RAGARENSIS Opera».
Esta gente da Riba Daura, e muita particularmente das povoações confinantes com as suas arribas, são de forte descendência castreja pre e proto-histórica, e Duas Igrejas é uma das de maior documentação arqueológica e socio-cultural.

Coreografia Popular Transmontana                   Prof. Santos Junior
                                                                                  Dr. António Mourinho