Danças Mirandesas – MARIPUM

Danças Mirandesas - MARIPUM

 

Bailado repasseado recolhido em Duas Igrejas em 1945.
Dança-se como as Geriboilas com os passos indicados Fig. 2 e cantado com a musica da Fig. 1.

Este bailado repasseado foi-me (A.M.) recitado pela senhora Maria Pires Gregório, de 56 anos, de Duas Igrejas.
Segue-se a letra que é cantada com a música da (Fig. 1).

A moda do Maripum,
Não tem nada que saber;
É andar c’ pé no ar
Outro no chão a bater.

 

   Estribilho

        Ai Maripum!
        Maripum, coitado!
        Não pagaste o vinho,
        Hás-de ser queimado!

A moda do Maripum,
É c’má folha do mineiro

O moço não paga o vinho,
Sem a namorar primeiro!…
        Ai Maripum!
        Maripum, coitado!, etc.

Este repasseado ouvi-o (A. M.) e vi-o cantar e dançar muitas vezes, em Duas Igrejas há mais de trinta anos. Ainda se canta e dança às vezes em terreiro. Pelo contexto da letra, parece ser um bailado de ocasião irónico-satírico, ameaçador  para o moço que não pagava o vinho, que levava como prémio, a ser queimado, em efígie. Ainda me recordo da pena que se aplicava aos novos casados que não pagavam a patente.

 

Fig. 1 - Música do bailado repasseado Maripum.

 

 

Em Sendim – Miranda do Douro, organizavam um grande cortejo de chocalhos e latas velhas, e tudo o que fizesse barulho e arruído, e a mocidade em grande esturdia, gastava uma tarde domingueira a dar voltas ao povo, na «chocalhada» e levavam na frente dois monos de palha, homem e mulher, que no fim, queimavam no centro da povoação. Aqui temos parte da explicação da letra do bailado deste Maripum. Para o Norte e centro da concelho de Miranda, em Cércio, Duas Igrejas, Malhadas, e Raia, a pena era esta mesma, quando não era mais dura, principalmente para os moços apanhados a namorar, em terra alheia, isto é, que não eram da povoação da namorada.

Fig. 2 - Sino dos rapazes de Sanhoane - Mogadouro.

 

Intimados a pagar o vinho, pela Junta do Mocidade, se estes se negavam, eram levados ao chafariz ou à fonte de mergulho do meio da povoação e eram baldeados lá dentro a corpo inteiro, mesmo que fosse em pleno inverno.

Igual costume existia no concelho do Mogadouro, onde ainda se conservam, no centro da aldeia de Urrós e da de Sanhoane (1) OS sinos, nas respéctivas sineiras, fora do campanário da Igreja para tocarem a rebate, quando sentiam rapaz estranho de noite, a rondar rapariga do povo. Ao toque da sineta, reuniam imediatamente, cercavam o rondador e, multa do vinho para a mocidade, ou mergulho na fonte.

Fig. 3 - Torre sineira de alvenaria tosca na povoação de Urrós - Mogadouro, com o sino dos rapazes. Este sino ainda hoje tem o condão exclusivo de conclamar a mocidade masculina, quando é surpreendido um rapaz de fora da aldeia a namorar rapariga da terra. Ao seu toque a mocidade junta-se e o moço é abrigado a «pagar o vinho», se não, é levado e baldeado na «fonte do lugar».

 

(1)   Em Sanhoane a sineira de tal sino está situada na parede da residência paroquial a faciar a rua.
Em Urrós, está no centro da povoação sobre um muro alto pequena torre rectangular de alvenaria.
Em Saldanha, do mesmo concelho era levado a um poço da ribeira marginal, ainda hoje chamado o «Bodelo» – «Levai-o ao Bodelo!. – diziam os conclamantes.