Danças Mirandesas – O Galandum

Danças Mirandesas - O Galandum

O Galandum é um bailado mirandês, entre os muitos que se dançam na região.
Pertence ao grupo dos bailados paralelos (1).

A primeira vez que vimos e ouvimos (P.e AM.) cantar e dançar O Galandum, foi por volta de 1944, à Sra. Maria Nunes, a «Tia Alonsa», de Cércio, pequena povoação mirandesa da freguesia de Duas Igrejas e do concelho de Miranda do Douro, com o «Tio Zé Pires», homem também de Cércio. Acrescentavam, no fim outra letra obscena, ao som da mesma música e com trejeitos lúbricos dos dois dançantes.
Esta velhota, simpática e cheia de vivacidade, era um cancioneiro vivo de canções e bailados mirandeses.
Pelo ana de 1945 percorremos (P.e A. M.) as terras de Miranda, dentro do concelho, deparando com muitas novidades que não conheciamos, e notando que boa parte das gentes da raia «se faziam zorros» (2), desconfiando do interesse que tínhamos em the aprender as canções e bailados. Por isso aos primeiros contactos, manifestavam acanhamento em se exibirem.
Conseguimos (A. M.) no entanto, animar as aldeias mirandesas a participar no grande certame folclórico em organização, para receber os ministros do Estado, na comemoração do IV Centenário da elevação de Miranda do Douro à categoria de cidade.
Chegado o dia 10 de Julho desse ano de 1945, data em que fazia quatrocentos anos que D. Joao III dera a Miranda foros de cidade e as prerrogativas das maiores cidades do país, várias centenas de figurantes, com seus trajos típicos e tradicionais e seus instrumentos musicais populares, alinharam aos lados das ruas da preciosa cidade quinhentista. Assim foram recebidos os ministros do Governo da Nação, com uma das mais imponentes e bizarras manifestações de cor, movimento e som, que se têm realizado em Portugal.
Eram 10 ou 12 grupos de «Pauliteiros» de outras tantas aldeias mirandesas; grupos de rapazes e raparigas com lindas canções e bailados e com as manifestações festivas das suas terras, nas diferentes quadras do ano.
Entre o sem-número de bailados que então se exibiram, apareceu o Galandum, cantado e bailado por um grupo de rapazes e raparigas de Malhadas e por outro de Constantim. Esta dança, pelo seu ineditismo flagrante e pela gravidade dos seus passos, impressionou agradavelmente toda a assistência.
Era precisamente aquele Galandum que no ano transacto tínhamos ouvido cantar e visto dançar à «Tia Alonsa» e ao «Tio Zé Pires» em Cércio, mas sem o complemento obsceno a que acima nos referimos.
Outras velhotas de Duas Igrejas depois mo ensinaram.
Chamei ainda a «Tia Alonsa», minha paroquiana, a ensiná-lo na sua antiga pureza aos componentes do Grupo Folclórico Mirandês de Duas Igrejas, então acabado de fundar.
Este bailado, pela natureza do ritmo e pelo sotaque da letra, nitidamente raiana, deve ter sido importado da Espanha, talvez por contrabandistas, talvez por ceifeiros, ou por outras vias que desconhecemos (3).
Não sabemos, porém, quando nem de que região.
É também certo que, entre os bailados espanhóis que conhecemos, nenhum encontramos, até hoje, de marcada semelhança; a com o Galandum, a não ser talvez a semelhança parcial com alguns passos dos «Picaios» da região de Santander.
A interpretação do nome Galandum oferece certas dificuldades. É possível, e até provável, que este nome esteja relacionado com o adjectivo «galan» (4), termo frequentíssimo em terras espanholas fronteiriças, bem como em toda a Espanha.
Conhecemos em Sendim de Miranda uma família de Galanes ou Galans, já hoje muito ramificada e oriunda de uma «Tia Galana».
Um pouco por toda a «terra de Miranda», e sobretudo em Sendim, é frequente o emprego do adjectivo galano e galana para significar bonito, esbelto, bem parecido, garboso, pimpão.
Galandum será, pois, uma palavra derivada de galan; pois são muito frequentes em «terras de Miranda» derivações deste tipo: por exemplo: marchandum, tamandum, morundum, etc.
A mesma terminação dum se encontra em mirandum, nome de um dos laços ou lhaços da dança dos paulitos, célebre dança mirandesa dançada só por homens ao som do tamboril e da gaita de fole, também chamada gaita galega ou gaita pastoril.

São os seguintes os versos do laço do mirandum:

Mirandum, mirandum, mirandela
Mirandum se fué à la guerra.
No sé cuando vendrá.
No sé se vendrá por lá páscua,
Se por la eternidad…
Se por la eternidad…
La eternidad se passa.
Mirandun, mirandun, mirandela,
Mirandun se vieno (vino) ya.

No Galandum o primeiro verso do canto é o seguinte: Senhor Galandum, galandun, galandaina …
Este galandaina não deve ser mais do que a repetição do nome anterior com o sufixo popular aina (5) muito frequente em terras de Miranda, e aqui empregado para evitar a monotonia da trirrepetição de galandun.
Os ademanes deste bailado, como sejam as vénias e genuflexões dos homens diante das damas e vice-versa, reflectindo urna flagrante gentileza de maneiras, fazem-nos entrever nele uma certa aristocracia.
Isso nos leva a perguntar se, nos séculos XVII ou XVIII, ou mesmo posteriormente, não teria ele sido transplantado dos salões da nobreza espanhola para os terreiros rurais donde se estendeu a. Miranda, e ali tem permanecido até hoje?

Instrumentos musicais

O galandum dança-se ao mesmo tempo que se canta.
A letra, um misto de espanhol e de português, e raiano característico. Algumas vezes cantam-no em puro mirandês. O canto é acompanhado pelos instrumentos musicais típicos da região, a saber: tamboril, gaita-de-fole, flauta, castanholas, carrascas e ferrinhos.
O tamboril é um tambor pequeno que se toca com duas baquetas. É um instrumento de especial agrado dos mirandeses.
Nas festas de terras de Miranda é frequente verem-se rapazes raparigas dançarem horas seguidas ao som repicado e vibrante do tamboril, sem acompanhamento de qualquer outro instrumento.
A gaita-de-fole e a clássica gaita pastoril ou gaita galega, mais estridente, por via de regra, do que as similares da Galiza: é também mais tosca, e por isso talvez mais típica.
A flauta pastoril, monotubular de três buracos, em mirandês fraita, feita ao torno manual, é de pau de buxo, ou de freixo e tocada só com três dedos duma mão, o polegar, o indicador e o médio (6).
Em terras de Miranda, na região espanhola de Saiago e na fronteira leonesa do Norte, o tocador de flauta acompanha com a outra mão um repicar de tambor pendurado no ombro ou a tiracolo.
Outro instrumento muito típico e o pandeiro, tocado pelas raparigas.

É o mesmo adufe bairão português de quatro esquinas, composto de quatro tábuas de mais ou menos 7 centimetros de largura e coberto com pele de ambos os lados. A pele geralmente é de ovelha, sendo muito boas também as peles de cão, cabrito ou novilho acabado de nascer.
Também há pandeiros em forma de losango e hexagonais ou de 6 esquinas. Parece que os havia redondos, com arco de cortiça, como se deduz da primeira das seguintes quadras mirandesas:

Este pandeiro que you toco
Ten um aro de cortiça
You toco na Castanheira
Responde na Belariça.

Este pandeiro que you toco
Dua çamarra d’oubeilha
Inda onte comiu ierba
Hoije toea que berreia.

Castanheira e Belariça são duas pequenas povoações, quase juntas na vertente da serra de Mogadouro, a confinar com terras de Miranda.
Uma outra quadra popular, também mirandesa, em que se alude ao pandeiro, é esta:

Indo you la sierra arriba
Delantre de mi piara
Repicando no pandeiro
Remendando la çamarra.

E esta outra também mirandesa em que, ampliando a locução proverbial – o que for soará – se diz:

Meu pai tem um perrico
Que dizem lo sfolhara;
De la çamarra quere fazer um pandeiro.
Lo que for ele sonará.

Esta ultima vem publicada pelo Abade de Baçal no T. IX das suas Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança, pag. 264.
Mais para o sul, em terras de Moncorvo, cantavam há algumas dezenas de anos, e possivelmente ainda hoje cantam, as seguintes quadras:

Este pandeiro qu’eu toco
Não e meu qu’e de Maria;
Que lh’o pedi emprestado
Para ir a romaria.

Este pandeiro qu’eu toco
Não e meu qu’e de Miguel.
So o toca ele e eu
E mais quem ele quiser.

 As pandeiretas, tão frequentes de norte a sul do país, que desnecessário se torna descrevê-las, são também instrumentos próprios do acompanhamento do Galandum.

Fig. 1 - Música do Galandum colhida pelo Maestro Afonso Valentim

As castanholas estralejam também no Galandum. São tocadas pelos homens e por eles feitas a navalha e enfeitadas com desenhos abertos à ponta da mesma navalha.
As conchas ou carracas, (onomatopaico mirandês) são as vulgares conchas de S. Tiago, ou seja as válvulas ventrais do molusco lamelibrânquio do genera Pecten de que há várias espécies na costa atlântica de Portugal e da Galiza. Deve tratar-se do Pecten maximus L. comum nos fundos próximos da costa. São as bem conhecidas vieiras, também designadas pelos nomes vulgares de leques, pentes ou romeiras.
Estas conchas, ou carracas, tocam-se esfregando-as uma de encontro à outra. As costelas ressaltando umas nas outras produzem um ruido seco, que lembra um pouco o das matracas.
Os ferrinhos são a bem conhecida barra de aço triangular, percurtido por um pequeno pedaço de verguinha de ferro.
Finalmente, o típico assobio pastoril executado vulgarmente pelas raparigas pastoras, proveniente do sopro emitido sob pressão por entre a língua e os dentes incisivos superiores.

A musica

Foi recolhida em Duas Igrejas no ambiente próprio e na própria região dos dançantes. As exibições fizeram-se no terreiro ou «curral» da residência paroquial, e no salão da mesma destinado aos ensaios do grupo folclórico de Duas Igrejas (7).

A música é um binário perfeito e parece nada ter de especial; vai reproduzida na página anexa.

A letra

Damos a seguir a letra do Galandum que assim se pode apreciar no seu conjunto e ao lado no dialecto mirandês.

Senhor Galandum,
Galandum, galandaina.
Madre la Biscaia …
Com las tres traseiras,
Com las delanteiras;
Dá-me la mano esquerda,
Dá-me la direita.
E arrendem-se atrás
Que manda la rebrência.
Não nos manda EI-Rei
Que manda a justicia.
Estes bailadores
Que se caiem com la risa;
Que se caiam,
Que se caiam.
Não vos manda EI-Rei
Que vos manda el alcaide.
Estes bailadores
Que se levantem,
E que bailem.
Que bailem,
Que bailen

Senhor Galandun,
Galandun, galandaina.
Madre la Biscaia ..
Cu-Ias tres traseiras,
Cu-Ias delanteiras;
Dá-me la mana isquierda,
Dá-me la dereita.
I arredem-se atrás
Que manda la reb’rência.
Nun bos manda I Rei
Que manda la justicia.
Estes beiladores
Que se caien cu-la risa;
Que se caian,
Que se caian.
Nun bos manda l Rei
Que bos manda l alcalde.
Estes beiladores
Que se Ihebanten,
I que bailen,
Que bailen,
Que bailen.

 Nem sempre a rigidez desta letra é respeitada. Há uma ou outra variante que, no entanto, não lhe altera a essência. Assim os versos 8.º, 9.º e seguintes, às vezes são cantados nesta forma:

Arreden-se atrás
I fagan la reb’rência.
Que nun manda l Rei
I manda la justicia.
Esses beiladores
Que se caien cu-Ia risa;
Que se caian,
Que se caian.

Que num manda l Rei
Que yá manda l alcalde

 Outras vezes os versos 8.º e 9.° aparecem na forma:

I arreda-te atrás
Que manda ]a reb’rencia

Nesta variante cada dançante dirige-se directamente ao seu parceiro que convida a afastar-se segundo manda a reverência ou etiqueta. Esta fórmula parece-nos mais popular do que a anterior na qual a expressão «Arredem-se atrás» tem um significado colectivo.

A dança
O Galandum é um bailado cheio de beleza coreográfica.
Por’ via de regra dançam-no quatro ou cinco pares, se bem que possam dançar o número de pares que se quiser.
Postos frente a frente em duas filas paralelas, homens numa, mulheres noutra, executam uma série de compassos, alguns bem lindos, numa sequência que não deixa de ter artístico encadeamento. Ao mesmo tempo que bailam vão cantando, em coro, a respectiva letra ao som da música já indicada.
Os homens tocam ou castanholas ou carracas, as mulheres pandeiros ou pandeiretas que trazem pendentes do ombro e que só repicam em determinados passos.
Postos frente a frente, em duas filas paralelas separadas cerca de dois metros, aos primeiros acordes da musica dançam saltitando, num ritmo binário. Aproximam-se, recuam e voltam a aproximar-se, como indica a Fig. 2, ao mesmo tempo que vão cantando:

Fig 2 - A - Primeiro passo do Galandum. Neste desenho e seguintes o simbolo de Júpiter indica os homens e o de Vénus as mulheres: B - Segundo passo. Meia volta à direita e em seguida meia volta à esquerda: C - Dá-me la mano esquerda: E - Afastam-se às arruecas, para em seguida votarem a aproximar-se: F - Homens de joelhos em terra. Mulheres bailam em volta cantando: Num vos manda l Rei que vos manda l alcalde.

Senhor Galandun,
Galandum, galandaina, } bis
Madre la Biscaia…

Ao terminar o último verso «Madre la Biscaia» devem ficar as duas filas muito próximas: homem e mulher de cada par frente a frente.
Assim termina o primeiro passo de dança, a que se segue o desenho coreográfico seguinte num encadeamento imediato, sem qualquer pausa a separar estes dois passos.
Prossegue a dança desandando cada figurante meia volta sobre a direita como se indica na Fig. 2, o que faz com que os pares fiquem de costas voltadas.
Ao mesmo tempo que adquirem esta posição, cantam:

Cu-las três traseiras,

Em seguida cada um faz meia volta sobre a esquerda, para os parceiros de cada par tornarem a ficar frente a frente (Fig. 3). Enquanto desandam vão cantando:

Cu-las delanteiras.

Depois dançam frente a frente em passo miudinho, numa espécie de picado, como quem marca passo, o corpo bamboleando num ritmo gracioso e suave, e dão as mãos esquerdas ao cantarem:

«Da-me la mana isquierda»

Acto continuo desligam as maõs para, imediatamente, com a mesma graciosidade, acompanhada de uma vénia discreta, darem as mãos direitas, que mantêm agarradas e sacodem levemente a maneira de cumprimento (Fig. 4); ao mesmo tempo cantam:

«Dá-me la dereita»

Como esta parte cantante é curta, os dançantes têm que actuar rápidos e bem sincronizados.

Todos os movimentos destes graciosos cumprimentos de mãos, ora esquerdas ora direitas, são bem cadenciados e as mãos levantadas à altura dos ombros ou mesmo mais acima, em altitudes de requintada elegância e gentileza.

Y arrenden-se atrás

Que manda la reb’rência.

Ao ritmo cadenciado deste cantar, sempre face a face, vão recuando uns e outros, afastando-se bastante, para, em seguida, e rápido, voltarem a aproximar-se. Ao mesmo tempo cantando:

Nun bos manda l Rei

Que manda la justícia.

E ao aproximarem-se, sem quebrarem o andamento ininterrupto do canto e da dança, elas, de mão direita levantada e dedo indicador estendido, apontam cada uma o seu par cantando todos:

Estes beiladores

Que se caien cu-la risa;

E logo num gesto com seu quê de imperioso, sacudido, algo enérgico como quem obriga a ajoelhar, cantam:

Que se caian,

Que se caian,

Os homens, como que obedecendo a essa ordem, põem um joelho em terra e assim ficam, tocando as castanholas ou carracas. As mulheres, empunhando os pandeiros que vão repicando a compasso, desandam um quarto de volta sobre a esquerda para, em fila indiana, seguirem bailando sobre a direita, passarem por detrás dos homens ajoelhados e tornaram a ficar cada uma em frente do seu par, após uma volta completa (Fig. 6). Durante este baiIado em torno dos homens ajoelhados, todos cantam:

Nun bas manda l Rei

Que bas manda l alcalde.

Estes dois versos são bisados ou mesmo trisados, de tal modo que o seu cantar permita dar a volta completa.

Em regra o bisado é suficiente para que cada mulher volte a ficar em frente do seu par ajoelhado.

Em seguida, elas, num gesto elegante de cortesia, estendem a mão direita aos seus pares, como que convidando-os a levantarem-se. Ao mesmo tempo cantam:

 

stes beiladores
Que se hebanten.
Y que bailen;
Que bail en,
Que bailen.

Eles erguem-se num pronto e bailam juntos, frente a frente, cada um com seu par. Ao cantarem o último «que bailen», pincham todos a pés juntos, marcando assim um forte remate estacado.
Depois de uns rápidos momentos de descanso, todos aguardam o andamento da música para a execução da segunda parte.
Nesta tudo se passa de modo semelhante ao que vai referido e esquematizado no desenho da Fig. 6, com a diferença de que agora são elas que ajoelham, ao mesmo tempo que todos cantam:

Estas beiladeiras
Que se caien cu-la risa;
Que se caian,
Que se caian.

E na parte final, convidando-as a levantarem-se, cantam:

Estas beiladeiras
Que se lhebanten,
Y que bailen.
Que bailen,
Que bailen.

Como no final da primeira parte, também aqui, ao cantarem o último «que bailen», pincham todos, à uma, a pés juntos, marcando do mesmo modo um forte remate estacado, aqui talvez mais enérgico, como remate que é do bailado.

Algumas considerações

a) Um dos aspectos interessantes na letra do Galandum é o que diz respeito aos versos 10.°, 11.° e 16.° e 17.° nas suas formas:

Nun bas manda l Rei
Que manda la justícia
………………………
………………………
Nun bos manda l Rei
Que bos manda l alcalde.

Antepôs-se, como se vê, o poder judicial ao poder do Rei, digamos, ao poder da realeza. Parece que se quis pôr em realce o poder jurídico como sendo de maior valia do que o poder real.

Numa variante às vezes cantam:
Ya nun manda l Rei
Que manda la justícia.

O que pode muito bem interpretar-se como referência a quebra ou desaparecimento do poder absoluto da realeza, e, ao mesmo tempo, constituir a exaItação e o devido acatamento à lei, cuja integral aplicação compete às autoridades vigiar e fazer cumprir. As autoridades representadas aqui pelo alcaide ou alcalde.

b) São muito curiosos os versos:

Que se caien cu-la risa;
Que se caian,
Que se caian.

A significação desta passagem pode interpretar-se assim:
«os dançantes de tanto se rirem ate se deixam cair; pois que se caiam».
O certo, porém, é que, nem neste passo, nem em qualquer outro do Galandum, nenhum dos dançantes se ri, nem muito nem pouco.
Ora, como atrás dissemos, é de presumir para esta dança uma origem aristocrática.

Quererá nestes três versos aludir-se ao facto de, na sua fase primitiva, esta dança, copiada dos bailados elegantes da nobreza, constituir, neste passo, uma espécie de caricatura à vénia acompanhada de genuflexão correntia na etiqueta do séc. XVIII?
No campo os habitos são, por via de regra, cheios de naturalidade.
Ao povo das aldeias, com o seu singelo e habitual cumprimento ou saudação «das boas horas» ou do «Deus vos salve», a genuflexão elegante e presumida com que os «peraltas» galanteavam as «sécias», devia apresentar-se-lhe acentuadamente, ridícula. Dai o riso explosivo e chocarreiro, a tal ponto que, de tanto se rirem, ate caiam ao chão.
Se esta interpretação da passagem apontada está certa, poderá admitir-se ter sido no declínio dos ademanes aristocráticos do sec. XVIII que o Galandum passou a ser dançado pelo povo.
c) O vocábulo risa, em mirandes, é corrente.
É frequente em quase todo o leste da província de Trás-os-Montes, no Entre-Sabor-e-Douro, o povo dizer riso, em vez de risa, e dar a risa em vez de rir.
É correntio o rifão «guardar de la risa para la llora» (8).
Na Quinta de S. Pedro, freguesia de Meririnhos, concelho de Mogadouro, temos ouvido (S. J.) frases como estas:
«Umas vezes causa grima (9) vê-lo, outras, mal o vejo, dá-me a risa».
«Quando acabei a minha conta (10) é que lhes deu a risa».

Em terras de Miranda é muito conhecida a anedota da mulher que mandou a filha ao moinho e o moleiro abusou dela.
– Mirai, à mai. El molineiro metiu-me cul culo no farneiro y fizo-me el que quijo.
– Quei dizes tonta?! e tu porque nun gritabas?
– Sim … y quien podie cu ia risa! … nun me mandarades alhá! …

CONCLUSÕES

O Galandum é um bailado mirandês fixado de preferência nas povoações confinantes com a raia espanhola. Deve ter sido importado da Espanha, possivelmente das danças aristocráticas dos séculos XVII ou XVIII, e fixado entre as populações rurais mirandesas, que com as gentes espanholas de Zamora e Saiago, sempre tiveram relações sociais e económicas estreitas, o que explica, muito naturalmente, o intercambio recreativo, demonstrado pelo numero e qualidade das canções e bailados de natureza castelhana e leonesa ainda com vida no folclore mirandês.
Uma natural e bem patente comunidade de condições de vida, resultante de similares ocupações agrárias, de idênticas condições geológicas e climáticas e até de estreitas afinidades no que respeita a sua origem remota, comum ou afim, fazem com que aquelas populações fronteiriças portuguesa de Terra de Miranda e espanhola de Zamora, as terras do velho reino de Leão, tenham manifestações folclóricas semelhantes.
É lógico.
Repetindo o que escrevemos (S. J.) quanta ao Minho e a Galiza (11) podemos dizer: mirandeses e leoneses, em muitas das suas manifestações folclóricas, mostram-nos múltiplos laços de parentesco que estreitamente os unem, a despeito da fronteira que as condições sociais e politicas ergueram a separá-los.
(1) O Galandum que agora se republica com ligeiros acrescentos, foi publicado no trabalho Coreografia popular trasmontana – III – 0 Galadum (Miranda do Douro), por Maestro Afonso Valentim, Padre António Marinho e Doutor Santos Junior, in «Douro Litoral», Boletim da Comissão Provincial de Etnografia e História, 5.ª Serie, n.º VII e VIII, Porto, 1953, pag. 3 a 18, 6 figs.
Rebelo Bonito, em artigo intitulado o Galandum e os seus problemas – Considerações a propósito de uma dança popular trasmontana, publicado em «Douro Litoral», 6.ª Serie, n.º III e IV, Porto 1954, pág. 3 a 25 e 9 figs., ocupou-se do nosso trabalho. Com ampla erudição musical e artística faz dele uma análise crítica pormenorizada, terminando pelas seguintes conclusões que passamos a transcrever:
a) – O galandum é uma Gavotte coreada como dança de coluna, no estilo do sec. XIX; b) – A música será da mesma época, todavia, elementos arcaizantes-hibridismo, antifonismo, cadencia irregular – permitem também supor que ela seja do sec: XVII, coeva da Gavotte papular coreada como dança derivada da Branle e influenciada pela Galharda; c) – É bastante provável que o Galandum seja oriundo da Biscaia, ou que tenha cameçado a popularizar-se a partir dessa região; d) – O Galandum, como dança, corresponderá a uma variedade da Gavotte oitocentista implicando o emprego da expressão galant homme; e) – De galant homme se tera formado a palavra Galandum.
Não se nos afigura (A.M.) aceitável esta génese de Galandum.

(2) Zorro, nesta acepção, significa matreiro, ficadiço, desentendido, calaceiro, manhoso. Possivelmente, senão mesmo de certeza, este vocábulo provém da palavra espanhola zorra que significa raposa, o animal matreiro par excelência.
Zorro, significa também filho natural ou ilegitimo.

(3) É bem possível que o Galandum tenha sido importada da Espanha. Não só por ter no seu conjunto, um não sei quê que nos faz lembrar a graça, a leveza e a vibração de certas danças e cantares populares espanhóis, mas também por nos parecer (P.e A. M.) existir certa semelhança entre alguns passos do Galandum e autros dos «Picaios», dança popular da região de Santander.
Além disso outros bailados mirandeses parecem ter parentesco com algumas danças espanholas do nosso conhecimento, o que é mais uma razão a juntar às anteriores.
Assim, par exemplo, o «Flaire cornudo» (Flaire e palavra mirandesa que significa frade), outro bailado mirandês, tem afinidades, ao menos na letra com um bailado que se dança em Burgos e na Extremadura espanhola, onde tem os nomes de «El Trepoletré» e «La Geringonza del Fraile». Conf. Domingo Hergueta y Martin Folklore Burgalés, Burgos, 1934, 240 págs.; vd. Pág. 102-105. Ver também Olmeda, Cancioneiro popular de Burgos: apud Domingo Hergueta y Martin cit.

(4) Nos lhaços ou bailados dos Pauliteiros há um chamado «La Berde, de carácter amoroso em que se canta: «Reten-te eiqui, reten-te eili, Molidogan, moço, galan, corregidor…», observação que não escapou ao Prof. Leite de Vasconcelos, Estudos de Filologia Mirandesa.

(5) É flagrante a familiaridade da mesma derivação no estribilho do rimance «Abre-me a porta, morena» que é:

«Ó redun, dun, dun, daina».
O sufixo aina aparece também noutras canções populares mirandesas como por exemplo nesta de sabor espanhol:

«EI cura está malo,
El cura está malo.
Malito na cama …
Chiribiribi, chiribiribaina
No me dá la gana».

Ou nesta perfeitamente mirandesa:

«Ua bielha dou un peido,
Chiribiribi.
A la porta de la scola,
Chiribiribaina.
A la porta de la scola.
Salirun ls studantes todos.
Chiribiribi.
– Santa Bárbola qu’atrona! …
Chiribiribaina.
– Santa Bárbola qu’atrona!…. »

(6) Os buracos são abertos ao fundo, dois na frente e um na rectaguarda. Os da frente ponteados para indicador e médio, o da rectaguarda pelo polegar da mão esquerda, enquanto a direita toca o tamboril com a baqueta.

(7) Fundamos (P.e A. M.) 0 Grupo Folclórico Mirandês de Duas Igrejas, congregando alguns elementos da freguesia que paroquiamos, a saber um grupo de Pauliteiros, uma secção mista de canções e bailados e o grupo das «Flores», que por ocasião das festas de Santa Bárbara se exibia pelas ruas da aldeia.
Em 1947 foi-lhe reconhecido mérito etnográfico e folclórico, quer sob o ponto de vista de pureza e carácter tradicionais, quer de riqueza artística, aquando do Concurso dos Ranchos Regionais do Norte, organizado no Porto pelo Secretariado Nacional de Informação. Nesse concurso o Grupo de Duas Igrejas foi premiado.
Em 1948 tomou parte nas comemorações do tricentenário da Restauração de Angola. Percorreu aquela província durante 3 meses.
Em 1949 filiou-se na F.N.A.T. e, em sua representação, tomou parte no Grande Concurso Internacional de Canções e Danças Populares realizado em Madrid. Conquistou o 1.º prémio de danças masculinas, um accessit ao 3.° prémio em danças mistas com acompanhamento de coro, e um accessit ao 5.° prémio em danças mistas sem coro. Estes prémios foram alcançados em competição com 260 grupos folclóricos de 16 nações.
Em 1950 foi seleccionado para tomar parte no festival internacional de Londres, a pedido da «The English Folk Dance Society».
Em 1953 comparticipou no VIII Concurso Internacional de Canções e Danças Populares de Madrid; também em 1953 foi o grupo seleccionado pelo S.N.I. para os festivais da «Societe de l’Ommegang» na Bélgica e em Biarritz, nos quais não pode comparticipar por motivo das ocupações agrícolas das pessoas que constituem o grupo. Em 1981, mantêm-se operacional, depois de já ter participado em festivais internacionais em França, Alemanha, Suiça, Áustria, América do Norte e em muitos mais de Espanha e Portugal, com a mesma espontaneidade e pureza com que foi criado.

(8) Dr. Ferreira Deusdado, Escorços trasmontanos, Ensaio de literatura regional, Angra do Heroísmo, 1912, pag. 318.

(9) Grima e provincianismo que em Trás-os-Montes temos ouvido a cada passo na acepção de pena, mágua, dó. Com este significado o registamos (S. J.) no capítulo sobre vocabulário a pág. 172 do nosso trabalho: Santos Junior, Estudo Antropológico e etnográfico da populacão de S. Pedro (Mogadouro), in «Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Vol. II, Porto, 1924, pags. 85 a 186, 17 figs.

(10) Na Quinta de S. Pedro (Mogadouro) não dizem «contar um conto» mas «contar uma conta». Do mesmo modo que em vez de riso dizem risa, também em vez de conto dizem conta.

(11) Santos Junior, Portugal e a Galiza irmã, in «Apolinea», Rev. mensal ilustrada, n.” 5, Out.° de 1933, Porto, 1933, pag. 12: id. Cantares Vianeses e o folclore da Galiza, in «Anuario do distrito de Viana do Castelo », vol. I, Viana do Castelo, 1932. Sobre o mesmo tema ver ainda Santos Junior, Afinidades galaico-portuguesas de folclore, in «Trabalhos da Sociedade portuguesa de Antropologia e Etnologia», vol. IV, Porto, 1929, pags. 183 a 190.