Danças Mirandesas – O Pingacho

Danças Mirandesas - O Pingacho

O Pingacho é um estranho bailado mirandês. Como o Galandum (1), é um bailado paralelo ou de coluna, misto, isto é, dançando por homens e mulheres, dispostos em duas filas, eles numa fila, elas na outra.
Vimo-lo dançar pela primeira vez (A. M.) em 10 de Julho de 1945, a um grupo de rapazes e raparigas da freguesia raiana de Paradela, a quando das comemorações centenárias da elevação de Miranda a categoria de cidade. O cortejo folclórico desse dia de Julho de 1945 teve o condão de nos revelar muitas coisas ignoradas do folclore mirandês, de que o Pingacho (2) é uma das suas mais interessantes manifestações.
Dançaram-no oito rapazes e oito raparigas, em trajes antigos, da terra de Miranda, queimados e crus com a charneca da região raiana de Paradela e das terras leonesas confinantes.
A dança era acompanhada de coro ao som de um singular instrumento de corda, que tinha por caixa de ressonância a parte fundeira duma lata de petróleo, em forma de cubo e com tampa furada do lado das cordas. Tocava este original instrumento o Sr. Francisco Domingues, lavrador-propriétario, natural e residente naquela freguesia. Este paradelense é um grande entusiasta das tradições mirandesas. É homem dotado de memória prodigiosa: sabe de cor a história de Portugal completa e em verso, a par de grande número de canções e rimances e uma parte muito grande da Bíblia.
Quem visse de chofre aqueJes oito pares a dançar frente a frente, e, logo, aos encontrões, primeiro de flanco ou de lado, depois pela frente e por último pela retaguarda, encostando-se pelos flancos, simulando encostar os umbigos e batendo com toda a força as fundos das costas em pleno realismo, sentir-se-ia, se não ruborizado de pejo, pelo menos fortemente impressionado.
As vozes duras, como os trajes e os gestos, contribuíam para dar ao conjunto um especial vigor.
Em 28 de Setembro de 1954 fomos os três (A. M., S. J. e 8. B.) a Paradela para estudar o Pingacho. Colheu-se a música, tomaram-se muitas notas e tiraram-se fotografias e um filme cinematográfico.
Fomos muito bem recebidos. Prontamente se organizou um baile no prado, onde novos e velhos dançaram o Pingacho, para que 0 pudéssemos ver e estudar à nossa vontade.
Paradela, freguesia do concelho de Miranda do Douro, fica situada na linha de fronteira, e é a aldeia mais oriental de Portugal metropolitano (3).
O Pingacho sempre se dançou em Paradela e, segundo nos disse 0 Sr. Francisco Rodrigues, também se dançava em Ifanes, Póvoa e Constantim, freguesias do concelho de Miranda e, como Paradela, também pertencentes a zona raiana.
Hoje, pode dizer-se que está quase circunscrito a Paradela.
As pessoas que mais dançam este bailado são os homens e as mulheres de idade. As moças de hoje, sob a influencia da vida moderna, já se envergonham de dançar os bailados de suas mães e avós: pelam-se pela música de disco e do alto-falante, música de ritmos importados que elas não sabem compreender nem dançar, mas que pincham e rodopiam porque são da moda.
O Sr. Francisco Rodrigues disse-nos que alguns em Paradela diziam Pindacho. Mas a tia Balbina Gonçalves, de 64 anos (1954), natural da Paradela, afirmou que sempre 0 dançara com o nome de Pingacho, sempre assim dissera e sempre assim ouvira.
Este bailado e, como já dissemos, do tipo paralelo dos bailados mirandeses ou de coluna, como o Galandum, a Bicha, o Redondo, as Ligas Berdes, Abas Berdes, ou Augas Berdes, o Maganão, a Saia da Carolina, etc. Os ritmos destes bailados são nitidamente desta região raiana leonesa-mirandesa, e todos parentes uns dos outros, na música, na coreografia, na mímica e alguns deles até na letra. Não nos parece que haja neles qualquer influência extra-peninsular.
Na terra de Miranda há bailados circulares, tipo fandango, como a Geriboila, e bailados passeados, que se dançam com uma infinidade de ritmos. Há também os bailados de par, como o puro e límpido Mira-me-Miguel, de carácter pastoril, e o Flaire (4), e ainda a característica e única Dança-do-Berço e o pantomínico e inédito Scarabanilho, bailado aos pares com o corpo dobrado para a frente e as mãos presas uma a outra por baixo das coxas. Há também o Maragato.
O Pingacho está hoje circunscrito ao lugar e freguesia de Paradela, fronteira com a povoação espanhola de Castro de Ladrones, Castro Ladron, ou Castro de Alcanices, na provincia de Zamora. Este bailado, que, como se disse, era também dançado em algumas aldeias vizinhas, tem na aldeia de Paradela o seu dia próprio no ano; é o dia 25 de Novembro, dia de Santa Catarina.
Embora esta e outras danças se possam bailar em qualquer ocasião têm, no entanto, dias assinalados no ano, que lhe são, pode dizer-se, especialmente consagrados. Assim sucede, por exemplo, com o Redondo, em Ifanes, e a Bicha e o Fandango, em Duas Igrejas.
Quase todas as povoações da terra de Miranda têm a sua festa de inverno dedicada a um santo, S. João, Santo Estêvam, Santo Amaro, S. Sebastião, S. Brás, Santa Catarina, Santa Luzia, etc., na qual há divertimentos tradicionais com comes bebes e danças próprias. Isto vem confirmar as remeniscências, vagas ou claras, das antigas celebrações pagãs, muitas de cunho fálico, ligadas as rituais gentílicas do solstício, como eram as saturnais, as dionisíacas, as lupercais, as amburbais, etc. (5).
A propósito das danças próprias de algumas festas trasmontanas, o grande etnógrafo Abade de Baçal escreveu (6): «A dança faz parte integrante destas festas que, em todas as modalidades, representam, não a rudeza selvática desta gente, mas sim o documento vivo de uma civilização a extinguir-se, … ».
Ao grande trasmontano que foi o eminente Abade de Baçal não queremos deixar de, neste momento, prestar a nossa homenagem à sua gloriosa memória. O Abade de Baçal foi um estudioso, apaixonado pela etnografia, pela arqueologia e pela história das terras do distrito de Bragança.

Fig. 1 - Música de O Pingacho típico bailado mirandês, escrita por Bento Bessa

Em longas caminhadas a pé por montes e vales, vilas e aldeias, e em longos anos nos legou muitos e valiosos estudos, e, nomeadamente, nos 11 volumes da sua obra monumental Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança, que, sob muitos aspectos, fazem a consagração dum Mestre.

INSTRUMENTOS MUSICAIS

Em 1945, 0 Sr. Francisco Domingues, nosso informador, de Paradela, tocava no cortejo de Miranda do Douro uma guitarra estranha, que pela sua bizarria e ineditismo chamou a atenção de toda a gente letrada e iletrada. Era uma lata de folha de Flandres em cubo, de capacidade de uns 10 litros, que servira para o petróleo, rota em circulo, num dos lados, a servir de caixa de ressonância e o bravo com as cordas apoiado numa das extremidades, passando as cordas por cima da abertura. Emitia um som estranho e fazia o único acompanhamento musical aos bailadores e bailadeiras do Pingacho e de outras cantigas e danças de Paradela, executadas no centenário de Miranda, ainda existentes em 1979.
O gaiteiro de Ifanes ainda tocava a Pingacho na sua gaita de fole. Este gaiteiro chamava-se José da Igreja, morreu de desastre em 1975. Não há mais quem toque na gaita de fole a musica desta dança.
A música e o repicado dos passos dos bailadores prestam-se muito bem ao toque das castanholas e dos ferrinhos, assim como ao rufo do tamboril feiticeiro da Terra de Miranda, ao ritmo do bombo, da gaita e da flauta pastoril.
No dia em que fomos todos três ver a Pingacho a Paradela e recolhemos estas notas, a Sr. Francisco Domingues tocava para os bailadores, uma bela e moderna guitarra portuguesa.

A música

Foi recolhida em Paradela, no ambiente próprio, na própria região dos dançantes. As exibições fizeram-se no prado que fica no cimo do cabeço e sobranceiro à povoação, que se estende logo abaixo no abrigueiro da encosta, eira comunal.

A música, em compasso lifeiro 3/8, vai reproduzida na página anexa.

Apesar de Paradela estar afastada de vale ou planície e de estar assente em região agreste, dura e penhascosa, o Pingacho não deixa de ser rico de movimento, vivacidade e alegria.

Analisando bem a sua contextura musical, pela sequência dos seus desenhos, pela sua linha melódica e rítmica e, sobretudo, pelos seus últimos compassos (7), chegamos (B. B.) à conclusão de que se trata dum bailado oriundo de Espanha, que aqui se fixou, porventura, se transformou, e, recebeu, como é natural, um pouco de feição portuguesa.
A data da sua importação poderá situar-se, a nosso ver (B. B.), entre os séculos XVII e XVIII.

O Pingacho é um bailado típico, curioso e cheio de interesse.

Mais realce alcançaria e, sem dúvida, um cunho de maior beleza, pureza e primitivismo, se em vez de ser acompanhado pela guitarra portuguesa, como o ouvimos, o fosse por instrumentos típicos da região tais como, a gaita de fole, o tamboril, a flauta e as castanholas.

A letra

Dámo-la a seguir em mirandês, bem raiano e de marcado sabor espanhol.

              Pur beilar l pingacho    – bis
              Dórun-m’un rial           – bis

 

         Estribilho:

              Beila-lo, beila-ló picorcito,
              Beila-lo que te quiero un pouquito.
              Beila-lo.
              Beila-lo de Ihado,
              De l’ outro ancustado,
              I de delantreira,
              Tamien de traseira.
              Ora assi que te quiero morena,
              Ora assi que te quiero salada.
              Por beilar l pingacho
              Dórun-me di reis.
              Beila-se de quatro
              I tamien de seis.

         Estribilho:

              Beila-Io, beila-Io picorcito, etc.
              Se lo beilares bien
              Darei-te un teston.
              Los que beilan bien
              Sei you quales son.

         Estribilho:

             Beila-Io, bejla-Io picorcito, etc

A letra e respeitada com relativa rigidês. No entanto ouvimos algumas divergências, que, sem constituirem propriamente variantes, não queremos deixar de registar.

Assim o primeiro verso do estribilho algumas vezes é:

              Beila-Io, beila-l0 picorcito.

Quer dizer, não se ouve o ó aberto do segundo beila-lo. Na terceira estrofe às vezes repetem a toadilha das outras duas estrofes e assim cantam:

              Pur beilar l pingacho
              Dórun-me un teston.

Também nesta terceira estrofe os homens, quase sempre, cantam:

              Las que beilan bien
              Sei you quales son.

Nos dois últimos versos do estribilho pareceu-nos que dizem indistintamente como vai indicado na letra ou assim:

              Ora si que te quiero morena,
              Ora si que te quiero salada.

Um ou outro, ao cantar acentua a sonância espanhola e então em vez de l pingacho dizem el pingacho, em vez de «Dórun-me» ouve-se «Dóro-me», e em vez de «pouquito». Mas são diferenças tao pouco acentuadas que pode afirmar-se: dum modo geral respeitam a rigidês da letra no seu falar mirandês, com o seu quê de sabor espanhol.

Fig. 2 - A - dois passos a um lado cantando Por beilar l pingacho: B - dois passos ao lado contrário para ocupar a posição primitiva, e, cantam Dorun-m'un rial: C - avanço e recuo, em picotado cheio de graciosidade, cantando os dois primeiros versos do estribilho Beila-lo, beila-ló picorcito, Beila-ló que te quiero um pouquito.

A dança

Os dançantes dipõem-se em duas filas, separadas de um metro a metro e meio; homens numa fila, mulheres na outra. o primeiro desenho coreográfico executa-se dançando dois passos a um lado, em compasso ternário (Fig. 2 A), ao mesmo tempo que cantam:

Pur beilar l pingacho.

Depois, em sequência imediata, e no mesmo compasso, executam dois passos em sentido contrario (Fig. 2 B), cantando:

Dórum-me um rial.

Voltam assim a ocupar a posição inicial.
Estes dois versos são bisados, bem como os respectivos desenhos coreográficos que os acompanham.

Fig. 3 - A - Os dançantes fazem notação concordante, tocam-se pelos quadris e cantam Beilá-lo de lhado. B - Meia volta saltitada leva-os a toparam os quadris do lado oposto, cantam De l'outro ancustado.

Depois, frente a frente, dançam um picado, atirando, de vez em quando, os pés para diante num movimento delicado e cheio de graciosidade. Quase não se arredam do mesmo sitio: apenas um ligeiro movimento de avanço e de recuo (Fig. 2 C). Estes avanços e recuos terminam com um movimento do pé direito levemente projectado para diante com certa delicadeza e muita graciosidade.

Entrementes vão cantando os dois primeiros versos do estribilho:

Beila-lo, beila-ló picorcito
Beila-lo que te quiero un pouquito.

O canto prossegue com um «Beila-lo» que constitui, por assim dizer, a preparação para a nova figura coreográfica. Esta consiste numa rotação rápida e concordante, de tal modo que os dançntes, então frente a frente, fiquem aos pares, lado a lado e voltados na mesma direcção. Ao fazerem esta rotação concordante vão cantando:

Beihi-lo de lhado.

Fig. 4 - I de delanteira. Fazem a embiaga por vezes bem realista.

E tocam-se pelos quadris, homem e mulher de cada par.
Imediatamente uma meia volta saltitada os leva a toparem os quadris ou flancos do lado oposto (Fig. 9), ao mesmo tempo que cantam:

De l’outro ancustado.

Segue-se um quarto de volta, de modo a que os pares fiquem de face. Logo dobram o corpo para trás em ligeira flexão de pernas e extensão do tronco. Deste modo simulam a aproximação dos ventres (Fig. 4) ao mesmo tempo que cantam:

I de delantreira.

Depois numa volta completa e rápida cada par fica costas-com-costas. Logo uma brusca flexão do tronco leva-os a dobrarem-se para diante, concordante e simultaneamente, e a embaterem um certo vigor as regiões nadegueiras, ao mesmo tempo que cantam:

Tamien de traseira.

Fig. 5 - Tambien de traseira. Embatem com força as regiões nadegueiras.

É impressionante o contraste entre o embate vigoroso das regiões nadegueiras e a maneira discreta com que, ao cantarem «l de delantreira», simulam a aproximação dos ventres, quando muito tocando-os levemente e as mais das vezes mantendo-se a certa distância. Passo discreto que bem atesta ser o pingacho dançado por aquela gente sem a menor sombra de malícia ou sensualismo.

Ora si que te quiero morena
Ora si que te quiero salada

São dançados num picado saltitante, costas-com-costas. Ao pronunciarem o «salada» final os dançantes de cada par fazem uma volta rápida trocando os lugares em passo cruzado.
Termina pois a dança com os pares de novo face a face.
Com cada estrofe se repete a sequência dos passos que acabamos de descrever.
Algumas considerações
Começaremos por analisar o nome do bailado.
Pingacho é um nome que se enraiza em pinga e pingar.
O sufixo acho é um diminutivo frequente na linguagem popular mirandesa e espanhola (8).
No dialecto mirandês não temos conhecimento do emprego da palavra pingacho. Há o vocábulo pinganilho como sinónimo de fluxo menstrual, e temos conhecimento do vocábulo pildracho designação da pele, depois de esfolada, de qualquer rez.
Desde que a palavra pingacho não aparece na fala mirandesa era lógico supor que fosse vocábulo espanhol. Porém o Dicionário da Academia Espanhola, 1852, não o regista mas refere pinganello com o significado de «0 mesmo que calamoco, canelon», ou gelo ponteagudo em pingentes, que pende dos beirais dos telhados nos dias de grande frio com nevoeirada, dias que no leste trasmontano são designados de sinceno ou sincelo. As gotas de água pendentes, com o frio intenso, vão sucessivamente gelando e formam pingentes.
Algumas palavras do canto em confirmação dos quatro diferentes toques do corpo, dão a ideia dum fundo de sensualismo: aquele picorcito é disso um exemplo.
Picor significa ardura, ardência, comichão, e ainda: quente, com ardência, com vibração, com entusiasmo.
Esta mesma palavra em espanhol significa «escoçor», comichão que resulta no paladar por ter comido alguma coisa picante. Por extensão diz-se do que se sente noutras partes do corpo: vis pruritus mordax (9).
Como vimos no final do Pingacho, depois daqueles encontrões de lado, de frente e de traseira, cantam, parece que muito satisfeitos,
Ora assi que te quiero morena
Ora assi que te quiero salada.
Este «salada» é também palavra espanhola que significa gracioso, agudo ou chistoso. Segundo o Dicionário da Academia Espanhola, salaz é um adjectivo do que é muito inclinado à luxúria.
Pelas considerações que vão feitas em relação a alguns vocábulos do contexto, parece poder conduir-se que este bailado gravita mais para o lado de Espanha do que para o lado de Portugal.
Podemos ainda acrescentar aquele «Dórun-me un rial».
O «rial» foi sempre moeda espanhola, desde longa data até ao fim da monarquia em 1931.
Há porém que referir circunstâncias que nos levam a notar no Pingacho uma certa influência portuguesa da terra de Miranda.
São elas a referência nos versos do canto as moedas portuguesas «dirreis» e «toston»: «Dirreis» é a antiga moeda portuguesa de dez reis. «Toston» é também moeda portuguesa, é o tostão que valia cinco vinténs, e que, durante a primeira grande guerra e depois dela, foi muito abundante em notas de papel emitidas pelas câmaras municipais para facilidade de trocos, dado o desaparecimento das pequeninas moedas de niquel de tostão cunhadas em niquel.
Uma das coisas que mais impressionam no Pingacho são aqueles referidos toques de corpo, de lado, de frente e de traseira, a que podemos chamar costeladas, umbigadas, e, à falta de melhor, cusadas.
O argentino Bruno C. JacoveIla, no seu trabalho Nota sobre «O Pingacho» y «La Firmeza», publicado no Vol. XIX dos «Trabalhos de Antropologia e Etnologia», Porto, 1964, pág. 372-373, realça a semelhança de Firmeza, dança argentina, com o Pingacho, pelo menos em alguns versos que se cantam em concordância com certos passos da dança.
De facto é flagrante a similitude, para não dizer identidade, com o Pingacho, dos seguintes versos da Firmeza: «Darás uma vuelta / con tu compañera. Con las tras trasera, / con la delantera. Con ese costado, / con el otro lado.
Bruno Jacovella conclui: «No son precisos mayores comentários para dar por comprobada la procedência española de La Firmeza».
A costelada é frequente nos bailados paralelos ou de coluna da região mirandesa, por exemplo nas Ligas Berdes, Habas Berdes ou Augas Berdes. No Redondo de Ifanes o bailado termina cada volta com a costelada.
Ao observar aqueles gestos tão realistas, embora a umbigada seja feita, como dissemos, de maneira bastante discreta, fica-nos a impressão de que no pingacho, pelo menos primitivamente, teria existido um fundo marcado de sensualismo. Isto permite admitir a hipótese de que este bailado representa um reliquat de alguma velha dança, inerente a um remoto e gentílico culto fálico (10) de que, de resto, tantas sobrevivências, mais ou menos vagas, nos aparecem em muitos usos e costumes populares de Portugal e da Espanha

Fig. 6 - Costas-com-costas segue-se flexão brusca do tronco que os leva a, dobrados para diante, embaterem com vigor as regiões nadegueiras, ao mesmo tempo que cantam: Tamien de traseira.
Fig. 7 - A dança termina com os pares face-a-face num picado saltitamte, ao mesmo tempo que cantam: Ora assi que te quiero morena, ora assi que te quiero salada.

Sabemos como já o escreveu o Abade de Baçal (11) «que entre os antigos iberos uma das formas do culto externo era constituído pela dança; não qualquer dança, mas sim uma especial consagrada pelas fórmulas litúrgicas, que tinha passos tregeitos, ritmos e cadências próprias – dança sagrada».
Muitas eram estas danças rituais entre os povos antigos.
Delas nos chegaram até hoje restos mais ou menos vivos, mais ou menos flagrantes.
A própria dança dos Paulitos que fazia parte integrante das procissões das festas religiosas em muitas regiões do leste transmontano (12) deve ter tido, de início, um significado essencialmente cultural e litúrgico.
Não parece nem ousado nem destituído de certo fundamento concluir que o Pingacho é um bailado de origem remota, certamente gentílica pré-romana, em ligaçao com velhos ritos de fecundidade, e dos quais o culto fálico foi de grande expansão nos povos primitivos peninsulares, a ajuizar pelas remeniscências que do mesmo ainda hoje se encontram em muitos usos e costumes populares. O Pingacho será um deles.

(1) Afonso Valentim, António Mourinho e Santos Júnior, 0 Galandum, Malha do cereal na Cardenha e cora dos malhadores, in «Douro- Litoral», n.· VII-VIII, 6.ª série, pág. 3 a 26, com 17 figs., Porto, 1955.
(2) Como é bem sabido o trasmontano lê o ch como tch, e assim dizem pingatcho.

Este trabalho foi por nós (A. M. e S. J.) apresentado à reunião cientifica da Sociedade de Antropologia, na F. C. da U. P. no dia 11 de Fevereiro de 1955. Foi publicado in «Douro Litoral», Boletim da Comissão Provincial de Etnografia e Historia, 8.ª Serie, n.º I-II, Porto, 1957, pág. 5 a 23, 19 figs., por António Mourinho, Santos Júnior Bento Bessa. Este colheu e escreveu a música.

(3) Para se ter ideia da posição em extrema oriental de Paradela, basta dizer que ela fica aproximadamente no meridiana que passa por Sevilha.
(4) Este bailado é também conhecido pelo nome de Flaire cornudo e tem afinidades, ao menos na letra, com um bailado que se dança em Burgos e na Estremadura espanhola, onde tem os nomes de «El tropeletré» e «La geringonza del Flaire». Conf. Domingo Hergueta y Martin, Folklore Burgales, Burgos, 1934, 240 págs.; vd. págs. 102-105. Ver também Olmeda, Cancioneiro popular de Burgos, apud Domingo Hergueta y Martin, cit. Flaire é palavra mirandesa arcaica que significa frade. Em espanhol fraile.
(5) P.e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança, vol. IX, Porto, 1934, pág. 287 a 296 e pág. 323.
(6) P.e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), A Festa dos Rapazes – Usanças tradicionalistas. – Notas Etnográficas. – Vestígios de um ciclo coreográfico prestes a extinguir-se, in «Ilustração Trasmontana», 3.° ano -1910, Porto, 1910, pág. 178 a 181, 3 figs.; transcrição, pág. 180; id., Mem. Arq. Hist. do dist. de Bragança, cit., vol. IX, pag. 295.
(7) O compasso de remate do estribilho na parte em que cantam o «salada» com o seu requebro, é pura e tipicamente espanhol.
(8) Leite de Vasconcelos, Estudos de Filologia Mirandesa, Lisboa, 1900, vol. I, pág. 341.
(9) Dicionário de la lengua castellana, por la Academia Española, Madrid, 1852.
(10) José de Pinho, A propósito duma velha jóia ibérica, in «Trabalhos da Sociedade portuguesa de Antropologia e Etnologia», vol. v, Porto, 1931, pág. 37 a 59. A este trabalho bem cabia o subtítulo de vestígios do culto fálico em Portugal. Das págs. 45 a 67, o A. refere muitos factos e, práticas populares em que e licito ver sobrevivências, mais ou menos flagrantes, dum velho culto fálico.
(11) P.e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), Mem. Arq. Hist. do dist. de Bragança, cit. vol. IX, pág. 295.
(12) P.e Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), Mem. Arq. Hist. do dist. de Bragança, cit. vol. IX, pág. 240-241.