Natal 1978

Quando tudo se transforma em festa da Natureza

As vozes dos moços rijos e sadios da terra transmontana vão, de novo, reboar por sob as abóbadas das sés muitas vezes seculares e das igrejas de lajedo carcomido (onde mal se lêem já as inscrições tumulares que as recobrem) dispersas pelas cidades e vilas, pelas aldeias, pelos simples povoados que assomam por entre as fragas ásperas, se alcandoram nos contrafortes das serras, se anicham no fundo dos vales, para lá do Marão.

Beijai o Menino
beijai-o agora,
beijai o Menino
de Nossa Senhora

Formam regra geral, um grupo cerrado ao fundo do templo. Atrás do mulherio. dos mais velhos, da raparigada. E as vozes crescem por sobre as de todos, lembram um trovão reboando pelas paredes frias e grossas das sés velhíssimas.

Beijai o Menino
beijai-o no pé,
beijai o Menino
que é de São José

E são eles sempre, por tradição, a fechar o cortejo lento e coleante do povo que, sempre cantando se põe em movimento, terminada a Missa do Galo, para desfilar ante o presépio armado, a beijar o pé do menino.
Lá fora  no adro de todas as igrejas de todos os povoados, arde desde o principio da noite uma fogueira imensa e crepitante, à volta da qual todo o povo se ajuntou e terminada a Missa, se voltará a ajuntar, para consoar em comum. Em Miranda, por exemplo, é já da tradição que ela arda, ininterruptamente, por três noites: a de 24, a de 25 e a de 26. Para isso – e uma vez mais para este Natal de 1978 isso aconteceu – todos os rapazes e homens válidos do lugar se meteram ao mato, dois ou três dias antes da grande noite que vai chegar a trazer os seus carregos de lenha que vão ajuntando, entre risos e descantes, no adro da sé, da igreja, da capela. Consoante o lugar e a importância do povoado, em suma. E quanto maior for o monte da lenha que se ajuntar, maior e mais prolongada será a fogueira de todos, na noite branca e de paz.
Ali, novos e velhos folgarão em honra de Jesus nascido. E ricos e pobres se irmanarão na dádiva comum da consoada gera. O bacalhau cozldo, com a couve – a troncha. O polvo, cozido com batatas ou guizado, de arrozada, As rabanadas e os fritos de farinha.
O afã pelas casas vai já solto desde há dias, Ajeitaram-se melhor os mantimentos no piso inferior da casa típica transmontana – a loja, lhe chamam -, onde se arrecada o azeite de um amarelo-quase-verde, résteas das cebolas, os toucinhos, os presuntos, onde sobre as secas abertas se derrama a batata que não poderá faltar pelo inverno adentro, a estará presente na ceia da noite que se avizinha.
E já se tende a massa para os fritos, já  da fonte ou do poço se alevantam os carregos de água para as limpezas que a festa impõe, Para lá do Douro, para além-Maráo, as gentes preparam-se, este ano como ontem e sempre, para viver a sua festa maior. De fora,  da Alemanha, na sua maioria de França, estão chegando já os filhos emigrados, as noras, os netos estão chegando os irmãos, os primos, os que a vida dispensou.
Mas há, para além da tónica comum, todo um salpicar curioso e pitoresco de tradições e usos e costumes à nossa espera, por toda a terra transmontana.
Em Genísío, já mais para as bandas de  Bragança, desde há dias já que prepara. afanosamente como todos os anos acontece, suas oferendas ao menino que vai nascer.
Ao soar da meia-noite, irão em cortejo alegre e buliçoso depositar junto ao presépio os ovos e as maçãs, os paios, os chouriços que todos consigo levam.  Que o Menino já nasceu – e vem fome.
Em Duas Igrejas, à roda da grande fogueira que tal como em todas as demais vilas e povoados de Trás-os-Montes arderão na noite de Natal, moços e moças de há muito catrapiscando-se, celebrarão seu «casamento a rigor, com padre e sacramento. Só que numa coragem súbita e aos olhos de todos, se darão entre si o braço e proclamarão bem alto, entre a galhofa geral, que «agora estamos casados». Como que numa espécie de juramento público, a anteceder o casamento que, mais tarde ou mais cedo, na verdade entre os dois se celebre. E tudo à volta fica, a partir daí, a saber do compromisso havido e que diante das palhinhas do presépio se assumiu. Para a vida e para a morte.
Mas porque o nascimento do menino é coisa de festa e própria para folgar, logo se dedica a cada uma das noites que se seguem à de Natal propriamente dita, um significado próprio. É esta a festa dos casados. Logo depois a dos solteiros. Com seus cantares próprios, suas mofas, seus dichotes, seus folguedos adequados. Dir-se-ia que para as gentes que entre as fragas morenas vivem, na terra fria e distante da lonjura portuguesa, o nascimento do Deus-Menino ganha de repente, em suas almas rudes e chãs, toda a força telúrica de uma imensa maravilhosa romaria popular. Em que a serra e os rios; os lobos; as ovelhas; turinas de fartos úberes; as pedras ásperas; as gentes curtidas de sóis e gelos, se confundem, afinal, no mesmo e único explodir de Natureza em festa.

O patriarca de Paradela

Com a chegada do Natal e a festa dos Reis, Paradela ganha nome, na boca do seu patriarca. É o senhor Francisco Martins, mais conhecido por «o Lérias».

Famoso entre as gentes da raia transmontana. É figura buscada repetidamente quer pelos jornais do Norte com sede no Porto, quer pela própria Televisão – a portuguesa e a espanhola, até. Porque nos seus setenta anos rijos, que dois olhos cheios de estranha luminosidade mais ainda animam, o senhor Lérias, de Paradela, torna-se na quadra festiva que chega, uma espécie de porta-voz do Senhor. Talvez melhor ainda: um outro Baptista, que não do Jordão, mas dos montes que, entre Miranda e Bragança, uns de encontro aos. outros tropeçam.

Ali o fomos também encontrar, na sua Paradela natal, passado que foi o povoado de Ifanes, choutando suas jericas com a pequenada à volta, os velhos dele se abeirando, enquanto de sua boca jorrava, ora em prosa de curioso sabor bíblico ora em verso ali mesmo improvisado, «a História maravilhosa do Filho de David e da sua palavra de Salvação». História que ele conta ao mesmo tempo que a vai comentando, numa filosofia muito sua e repassada de deliciosos conceitos regionais. Entre as serras; envolto na neblina do inverno cinzento e branco que à sua volta enregela; entre os homens e as crianças; entre os bichos e as casas rústicas – o patriarca de Paradela é, de repente, um estranho e curioso Auto da Natividade a uma só voz e um só intérprete.